sábado, 13 de novembro de 2010

Criação de Galinha Caipira Gera lucros.




Quem anda pelas vilas e povoados do interior do país já está acostumado com a cena: grupos de galos, galinhas e pintinhos soltos, perambulando livremente por ruas de chão batido e terrenos baldios das comunidades rurais, como se não tivessem dono. Mas têm. Em geral, essas aves pertencem a famílias de pequenos agricultores, que as criam de forma rudimentar, basicamente para consumo pessoal da casa. Esse tipo de criação extensiva, tão comum nas pequenas comunidades rurais brasileiras, apresenta índice elevado de desperdício, com a mortalidade dos animais girando em torno de 50%.

O que muitas dessas famílias estão descobrindo agora, é que, com a aplicação de métodos adequados, aliados a um investimento relativamente baixo em infra-estrutura, é possível ampliar muito a produção, reduzir substancialmente as perdas, melhorar a qualidade da carne e dos ovos, e transformar a sua pequena criação avícola num empreendimento lucrativo, gerando ocupação e renda para a família, além de uma complementação alimentar mais rica.

É justamente com esse objetivo que o Sebrae está investindo na difusão de um modelo inovador de aviário de galinha caipira. Trata-se de uma tecnologia social que já vem sendo aplicada, com êxito, junto a 200 famílias piauienses, no projeto Avicultura do Piauí, tendo como parceiros o SENAR, as prefeituras municipais, o Banco do Brasil e a FBB. Dentro da metodologia de construção dos aviários, os animais passam a ser criados em sistema de semiconfinamento, de modo a racionalizar custos e espaços, proporcionando uma produção planejada e sustentável, na qual a perda de animais normalmente não ultrapassa a marca dos 5%.

Atualmente, dez municípios do Piauí já aderiram ao projeto: Vera Mendes, Jatobá do Piauí, Arraial, Guadalupe, Santa Rosa, Cajazeiras do Piauí, São Pedro do Piauí, Nossa Senhora de Nazaré, Campo Maior e Teresina. O público-alvo prioritário são as mulheres integrantes das famílias agricultoras, que se encontravam sem uma ocupação remunerada. “Muitas das famílias participantes do projeto já tinham essa tradição de criar as aves, mas de forma desordenada. Agora elas estão conseguindo transformar essa criação em negócio”, destaca João Fernando de Almeida, coordenador do projeto pelo Sebrae Nacional.

De acordo com a planta do projeto, o aviário pode ser construído com 24 m² ou 32 m² , desde que seja em local plano e de acesso fácil. É necessário também dispor de água e energia elétrica na propriedade. O espaço, após instalado e cercado, contará com uma área descoberta, para as aves ciscarem à vontade, e outra parte fechada, onde os animais serão recolhidos no período da noite.

Vale ressaltar que todo o processo de construção é conduzido pelos próprios avicultores, em sistema de mutirão. Uma família se junta com a outra e constroem a estrutura numa determinada propriedade; e logo depois, juntas, seguem para outro terreno. E, assim, cada criador passa a ter o seu aviário construído. “É a contrapartida das comunidades, que inclui a disponibilização de seu terreno e a mão-de-obra da construção dos aviários. E, em alguns municípios, a comunidade também custeia parte do material”, afirma João Pinheiro Júnior, gestor do projeto pelo Sebrae/PI.

Cerca de 80% dos materiais utilizados podem ser encontrados na área da propriedade – entre eles, palha e madeira. Quando são utilizados outros componentes, como telhas e tijolos, é comum as próprias famílias se reunirem para produzi-los, ou, se não, para buscar condições diferenciadas de aquisição junto a fábricas locais. É o caso, por exemplo, do município de Campo Maior, onde uma cerâmica da cidade vende a telha para esses avicultores a um preço que corresponde a 30% do valor de mercado. São telhas que têm pequenos defeitos, como alguma rachadura num dos cantos, e por isso não vão para o mercado, mas que servem perfeitamente para os aviários. Também em Jatobá do Piauí, a maioria dos avicultores reside em torno de uma cerâmica, e podem comprar a telha por um preço bem barato. Já em outros municípios, como São Pedro do Piauí, a opção encontrada pelos produtores foi mesmo cobrir seus 15 aviários com palha.

Para potencializar os resultados com a implantação da nova tecnologia de produção, foram introduzidas raças melhoradas de aves nessas comunidades. Uma delas é a Label Rouge, também conhecida como Pescoço Pelado. Outra variedade é a Paraíso Pedrês. São tipos bastante rústicos, que apresentam excelente retorno em termos de conversão alimentar. Essa medida foi necessária, pois a raça que vinha sendo criada pelas famílias locais já se encontrava significativamente degenerada, em função da miscigenação a que fora historicamente submetida. “Os frangos que eles criavam demoravam, às vezes, até oito meses desde o nascimento do pintinho até poder chegar ao mercado. Hoje, com a raça melhorada, esse prazo é de três a quatro meses”, destaca João Pinheiro Júnior.

Em geral, o empreendimento começa com cerca de 50 pintinhos, o que é um número relativamente pequeno, para que os produtores adquiram experiência com o sistema. Gradativamente, a quantidade de aves é elevada, chegando a 200 ou mais unidades. Durante o primeiro mês, os criadores recebem a recomendação de comprar a ração das aves em casas especializadas. Mas a partir do 30º dia, essa ração é feita pela própria comunidade, à base de ingredientes como milho, soja e mandioca. A alimentação é complementada com frutas, verduras, capim e uma série de outros itens que existem com fartura na própria comunidade.

A escolha das famílias participantes é precedida da definição dos municípios e, dentro deles, das comunidades que receberão o projeto. Para isso, existem critérios prédefinidos. Um deles é a necessidade de que a prefeitura esteja aberta a essa parceria, responsabilizando-se, entre outros, por custos relativos a alimentação e hospedagem do consultor e dos instrutores que irão atuar no local. Alguns gestores municipais também assumem a responsabilidade de bancar parte do material para a construção dos aviários. Apesar de não ser a regra geral, essa é uma contribuição sempre relevante, haja vista a situação de dificuldades financeiras em que vive a maior parte das famílias atendidas. Vale lembrar que o custo de montagem do aviário está entre R$ 750,00, para o de 24 m² , e R$ 1.200,00, para o de 32 m² .

O coordenador João Fernando explica que, cada vez mais, os prefeitos têm percebido os benefícios de contar com o projeto de avicultura dentro dos seus municípios. “As prefeituras estão empolgadas. Esse projeto transformou algumas comunidades, que faziam essa atividade de forma totalmente secundária, e agora conciliam esta com outras atividades. É uma tecnologia social de baixo custo, e pode ser facilmente reaplicada em outras comunidades”, diz.

Também é considerado como critério para a implantação do projeto o fato de aquela comunidade já possuir vocação para criação de galinhas caipiras. Além disso, procura-se selecionar famílias que residam próximas umas das outras, de modo a facilitar o deslocamento do consultor entre as propriedades. Outra característica que se busca é que a comunidade esteja relativamente perto dos centros consumidores, o que irá facilitar o transporte das aves para comercialização.

Capacitação e competitividade

Uma vez concluídas as etapas de mobilização e seleção das famílias, o Sebrae inicia a fase de sensibilização desses produtores, mostrando para eles o potencial daquele negócio e as vantagens de trabalhar de forma planejada, dentro do modelo proposto. Paralelamente, começam as atividades de capacitação, abrangendo diversos conteúdos em áreas relativas à produção e à comercialização das aves.

“Primeiro fazemos uma oficina de conscientização sobre o que é o projeto, qual o papel do Sebrae, da Prefeitura, da comunidade e de cada avicultor individualmente. Depois é promovida a oficina ‘Juntos somos fortes’, para fortalecer os laços de cooperação. Após isso, há os cursos de associativismo e de gerenciamento de pequenos negócios, bem como o de avicultura básica, no qual é ensinado como instalar um aviário e o manejo das aves. Como a maioria é composta de mulheres, também é feito o curso ‘Mulher Empreendedora’, especiicamente voltado para elas”, detalha Ana Lúcia Pereira Oliveira, gerente da Carteira de Projetos Territoriais do Sebrae/PI.

Mesmo após concluírem a instalação dos seus aviários, os produtores continuam recebendo orientação técnica, para que se mantenham alinhados à metodologia proposta pelo projeto. Para isso, três técnicos contratados pelo Sebrae se dividem para acompanhar os dez municípios envolvidos na iniciativa. A cada mês, esses consultores visitam todas as famílias participantes.

Em termos de preço de mercado,a galinha caipira tem um expressivo diferencial em relação ao frango industrializado, sendo vendida na faixa de R$ 12,00 por unidade de 2 kg, enquanto o outro, com mesmo peso, vale, no Piauí, algo em torno de R$ 6,00. E as vendas não param de crescer, seja nas feiras livres das cidades vizinhas, seja dentro das próprias comunidades, ou ainda em restaurantes dos municípios. Recentemente foi fechado um acordo com o Governo do Estado, que se comprometeu a adquirir as aves produzidas dentro do projeto para o programa Compra Direta, que as reverte para a merenda escolar.

Como para todo bom empreendimento é preciso olhar adiante, o Sebrae/PI tem procurado dinamizar ainda mais esse mercado. Recentemente, por exemplo, foi promovido um curso de culinária à base de galinha caipira, no qual foi ensinada uma série de receitas à base desse produto, como creme de
galinha, tortas, vatapá e outros. Participaram desde as merendeiras das escolas até os donos de bares e restaurantes locais, que passam a conhecer novas aplicabilidades para utilização das aves em seu dia-a-dia.

Por tudo isso, fica evidente que o projeto de aviários de galinha caipira é uma alternativa real para o desenvolvimento sustentável de várias comunidades, não apenas no Piauí, mas também nas diferentes regiões do país. E o que é melhor, ganham os criadores e ganham também os consumidores, que passam a ter acesso a novas possibilidades gastronômicas para usufruir de um alimento saudável, seguro e ecologicamente produzido.

Fonte: Revista Sebrae Agronegócios - nº 7 - Dezembro de 2007

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